Desaceleração mais forte da economia amplia desafios de quem vencer a eleição

O presidente a ser eleito terá de apresentar um plano firme de ajuste fiscal; sem isso, os juros continuarão altos, e aumentarão os riscos de uma recessão.

Enquanto o país discute assuntos como a crise do Supremo Tribunal Federal (STF), o aumento do Bolsa Família e a proibição das bets, o debate sobre economia fica em segundo plano nas eleições, num momento em que a atividade desacelera com mais força do que se esperava há alguns meses. O crescimento de 2026 deverá ficar abaixo do que se projetava no primeiro semestre – Itaú Unibanco e Bradesco, por exemplo, reduziram há alguns dias a estimativa para a expansão do PIB neste ano de 1,9% para 1,7%. A inflação, por sua vez, não é explosiva, mas não se aproxima da meta de 3%, e os juros continuam elevadíssimos, ainda que a Selic possa cair mais uma ou duas vezes, dos atuais 13,75% ao ano para 13,25% ou 13,5%.

O vencedor das eleições assumirá o mandato com uma economia fraca, que deverá crescer na casa de 1% em 2027. Muitas famílias e empresas estão excessivamente endividadas, enquanto o setor público tem um déficit nominal (inclui gastos com juros) na casa de 9% do PIB e uma dívida bruta em trajetória ascendente, que deverá fechar o ano em torno de 83% do PIB.

O desafio mais imediato do presidente a ser eleito será apresentar um plano fiscal que enfrente o crescimento das despesas obrigatórias, para reduzir as incertezas sobre as contas públicas. Sem isso, não haverá espaço para quedas mais fortes da Selic. A falta de um ajuste mais firme pelo lado dos gastos pode causar uma desvalorização mais significativa do câmbio, o que pressionaria a inflação, num momento em que os juros em países como os EUA estão estruturalmente mais altos, uma má notícia para emergentes como o Brasil. Nesse cenário, a fraqueza da economia poderia se transforma numa recessão, o que seria uma péssima notícia para o começo do novo governo, num país ultrapolarizado politicamente.

O PIB já teve uma desaceleração expressiva do primeiro para o segundo trimestre. De janeiro a março, o crescimento foi de 1,1% em relação aos três meses anteriores, feito o ajuste sazonal. No segundo trimestre, a expansão foi de 0,5%, com o consumo das famílias recuando 0,4%. O avanço do PIB entre abril e junho foi puxado pela agropecuária e pela indústria extrativa, dois setores não cíclicos, pouco afetados pelo nível dos juros, hoje um pouco abaixo de 9% em termos reais, quando se compara a Selic com a inflação projetada para os próximos 12 meses.

Para o terceiro trimestre, a expectativa é de perda de fôlego adicional da economia. “Os indicadores divulgados para o terceiro trimestre apontam para uma desaceleração da atividade mais intensa do que antecipávamos”, diz o Itaú Unibanco, em relatório divulgado na sexta-feira, em que revisou o cenário econômico. O indicador do banco aponta para estabilidade do PIB no período de julho a setembro, abaixo da alta de 0,2% projetada anteriormente.

Nesse quadro, o Itaú Unibanco reduziu a estimativa de crescimento em 2026 de 1,9% para 1,7%, refletindo a incorporação dos dados sobre o terceiro trimestre e a perspectiva de maior moderação para o último trimestre do ano.

“Seguimos esperando uma desaceleração da atividade ao longo dos próximos trimestres, em resposta à dissipação dos estímulos fiscais e à continuidade dos efeitos contracionistas da política monetária”, apontam os economistas do banco, que cortaram a projeção do crescimento de 2027 de 1,5% para 1,2%. A estimativa leva em conta uma herança estatística mais baixa que 2026 deixará para o ano que vem, além dos “efeitos defasados cumulativos” do aperto monetário. “Mesmo após a revisão, continuamos avaliando que o balanço de riscos para o crescimento no próximo ano permanece assimétrico para baixo, refletindo principalmente os impactos dos juros altos em um ambiente de endividamento elevado das famílias e das empresas”, escrevem eles.

É nesse ambiente econômico que se definirá a eleição presidencial. O percentual de famílias brasileiras endividadas está em nível recorde, tendo atingido 82% em julho e agosto, segundo pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Os juros nas alturas têm estrangulado as finanças de trabalhadores e empresários.

O nível atual da Selic é insustentável. Se não tomar uma atitude firme em relação à situação fiscal, o presidente a ser eleito tenderá a enfrentar no começo do mandato a deterioração dos problemas de endividamento do setor privado e do setor público. A desaceleração da atividade poderá se tornar recessão, e crescerão as chances de explosão da inadimplência das famílias e de ampliação da onda de recuperações judiciais e extrajudiciais de empresas. No caso do setor público, a dinâmica do endividamento tende a se agravar ainda mais se os juros não cederem, afetando a percepção do risco fiscal do país.

Além do ajuste fiscal para baixar os juros, há uma agenda econômica de longo prazo a ser tocada, que precisará focar em medidas para aumentar a produtividade. Sem iniciativas para elevar os ganhos de eficiência da economia, o país não crescerá a taxas maiores de modo sustentado. É uma discussão basicamente inexistente na campanha eleitoral, ainda menos mencionada que a necessidade de um ajuste das contas públicas. A agenda envolve medidas para melhorar o ambiente de negócios, reduzir a insegurança jurídica, aperfeiçoar o capital humano e garantir o avanço da infraestrutura. Sem investir nessas frentes, que passam ao largo da campanha, o país estará condenado a um crescimento medíocre, com o qual infelizmente parece já habituado.

Fonte: https://valor.globo.com/brasil/coluna/desaceleracao-mais-forte-da-economia-amplia-desafios-de-quem-vencer-a-eleicao.ghtml

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