Mudança no consumo, congelados e escassez de mão de obra abrem oportunidades para o pescado no varejo

Economista-chefe da Apas, Felipe Queiroz analisa as tendências do pescado no varejo e os caminhos para a indústria superar desafios logísticos e conquistar relevância no mercado

A busca por maior longevidade e alimentação saudável tem redefinido o comportamento do consumidor brasileiro. Nesse cenário, o setor de pescado vive um momento estratégico no varejo alimentar. Em entrevista exclusiva, Felipe Queiroz, economista-chefe da Associação Paulista de Supermercados (Apas), analisa como o aumento da renda real, as mudanças no mercado de trabalho e o avanço de medicamentos análogos de GLP-1 (canetas emagrecedoras) abrem novas oportunidades para a indústria pescado.

No entanto, a consolidação dessa categoria nas gôndolas brasileiras ainda enfrenta desafios operacionais rigorosos, com normas da Vigilância Sanitária e do Mapa, gargalos logísticos na cadeia de frio e a crescente escassez de mão de obra qualificada no varejo.

Na entrevista para Seafood Brasil #64, Queiroz detalha mais sobre o cenário e as estratégias que vão além das gôndolas:

Quais são as tendências e gargalos para o consumo de peixe no varejo

1- Seafoood Brasil: Como você analisa o posicionamento do pescado no varejo atual, considerando as principais tendências de consumo, e quais são os principais gargalos existentes para a expansão do volume de vendas deste produto?

Felipe Queiroz: O que podemos observar, inclusive com as pesquisas que a Apas tem realizado sobre o comportamento do consumidor, é uma busca crescente por saudabilidade – isso se reflete diretamente na alteração da cesta de produtos. Logo, o pescado se apresenta como um item importante nessa cesta, com muito potencial de expansão.

Atualmente, as áreas costeiras e as próximas a rios são as que registram um consumo médio maior em relação à média nacional.

Nesse sentido, nós observamos – não como um gargalo, mas sim como uma grande oportunidade de expansão para a indústria – o forte crescimento do segmento de peixes congelados.

2- Seafoood Brasil: Aproveitando o gancho sobre o estudo da Apas, um dos pontos inovadores apresentados este ano durante a Apas Show, que aconteceu em maio, foi o impacto dos medicamentos análogos de GLP-1 (as canetas emagrecedoras) na mudança do perfil de consumo. Pensando no mercado de pescado, de que maneira a indústria e o varejo podem trabalhar o marketing e o posicionamento para captar novos consumidores de olho nessa oportunidade?

Felipe Queiroz: Há uma mudança estrutural em curso na sociedade: a busca por maior saudabilidade, por uma dieta equilibrada e o desejo de viver mais e melhor.

A pesquisa que realizamos mostra que, quando as pessoas começam a utilizar as canetas emagrecedoras, o objetivo vai além da perda de peso, pois envolve uma transformação no estilo e no padrão de vida.

Isso abre um grande leque de possibilidades para a indústria do pescado, considerando que ele não é apenas uma fonte de proteína magra, mas também um alimento rico em ômega-3 e vitaminas essenciais.

Sendo assim, é fundamental que o setor aproveite este momento como uma janela estratégica de expansão. Isso envolve desde a construção de um soft power para a cadeia, por meio de propaganda e marketing, até ações institucionais que estimulem o aumento do consumo na sociedade.

“Quando a renda aumenta, o consumo não apenas cresce, mas se transforma: as pessoas passam a buscar produtos de maior valor agregado. É aí que se abre um leque de oportunidades para o pescado, tanto o nacional quanto o importado.”

3- Seafoood Brasil: Durante a coletiva do evento, você mencionou que o varejo supermercadista brasileiro desenha hoje dois modelos de comercialização: a peixaria tradicional (com cortes feitos na hora) e o segmento de congelados, que está em franca expansão. Como a indústria de processamento deve se posicionar para atender a essa demanda por diferentes espécies e cortes, visando especialmente o mercado de congelados?

Felipe Queiroz: A indústria, de modo geral, acompanha as transformações da sociedade. Hoje, um dos grandes desafios do varejo diz respeito à empregabilidade e à atração de mão de obra especializada, desde o açougueiro até o peixeiro.

Diante dessa escassez em áreas estratégicas para as lojas, abre-se espaço para a expansão de produtos industrializados que tragam maior conveniência ao consumidor. Assim, o setor supermercadista consegue atender a diferentes nichos de clientes.

Acompanhar pari passu o comportamento da sociedade é fundamental para a indústria não perder o timing e, consequentemente, ampliar sua participação de mercado e o volume de vendas.

Fonte: https://www.seafoodbrasil.com.br/varejo/mudanca-no-consumo-congelados-e-escassez-de-mao-de-obra-abrem-oportunidades-para-o-pescado-no-varejo/